sábado

sábados, os dias amenos
dia de desligar o despertador e dormir até tarde
o dia perfeito para encontrar pessoas amadas
fazer um piquenique no parque, almoçar com a família, ver o pôr do sol
ou para cometer suicídio, com a corda novinha comprada no atacarejo da construção, 
aquele que inaugurou na quinta, e você foi lá, perguntou ao vendedor se tinha corda de rapel ou similar (esporte esse que você nunca faria porque tem alergia de aventura), levou 10 metros por 29,90
e acordou neste sábado, tomou um café preto, terminou aquele livro que estava procrastinando há semanas
então percebeu que no seu apartamento não tem lugar para pendurar cordas
aí resolveu ir ao cinema, assistir aquele filme de terror que com certeza deve ser horrível
e na segunda, é, na segunda, você veria o que fazer

você não merece

você não merece o meu amor
nem o meu rancor
não merece a minha alegria
nem a minha agonia
não merece os meus anseios
nem os meus receios
não merece a minha doçura
nem a minha amargura
não merece o meu carinho
nem me fazer de ninho
não merece o meu conforto
nem o toque do meu corpo
não merece a minha presença
nem a minha ausência
não merece ser o meu tesouro
nem escutar o meu choro
não merece o meu entusiasmo
nem o meu sarcasmo
não merece a minha fúria
nem a minha penúria
não merece a minha adoração
nem a minha decepção
não merece a minha lembrança
nem a minha esperança
não merece a minha lealdade
nem a minha amizade
você não merece nada de mim
portanto, decreto aqui o nosso fim

cosmos

você, o Sol em declínio
devorando os planetas que orbitam ao seu redor
planetas necessitados de sua energia, que está tão fraca
queimando sem aquecer

você, buraco negro supermassivo
roubando luzes para permanecer vivo
mas a sua escuridão só atrai mais escuridão
esmagando tudo que tem, ao invés de reter

você, asteroide em colisão
exterminando a raça humana com a força do impacto
as crateras deixadas na Terra contam sua história
o preço de se esconder da dor

você, um novo ciclo cósmico
o universo expandido e contraído
testemunhando nascimentos de mundos, estrelas, galáxias
enquanto almeja a próxima extinção

não há nada errado

não há nada errado em amar e não ser amado, 
o peito expandido para suportar dor e ternura
não há nada de errado em admirar um pássaro, sem espantá-lo, 
escutando o canto que fica mais bonito na liberdade
não há nada de errado em se levantar e ir embora, se a situação não te satisfaz
não há nada de errado em escolher o agora e deixar o passado para trás
não há nada de errado em ser sincero, num lugar em que os rostos usam máscaras
não há nada de errado em se apoiar em alguém e fazer dele sua casa
não há nada de errado em querer ser rio que deságua no mar,
para depois descobrir que esse mar era apenas um córrego
não há nada de errado em chorar sozinho até as lágrimas secarem e a alma ficar leve
não há nada de errado em gargalhar sem motivo algum, só porque pode
não há nada de errado em desejar que o coração caiba em um cofre,
seguro de todos os sentimentos, sejam bons ou ruins
não há nada de errado em fazer papel de bobo quando se está apaixonado
não há nada de errado em confiar mesmo quando já foi enganado
não há nada de errado em querer mais do que se tem
não há nada de errado em não querer nada
não há nada de errado em sentir medo de vez em quando, o corpo paralisado antes do mergulho
não há nada de errado em mergulhar sem olhar o que tem no fundo
não há nada de errado em escolher a si mesmo, antes de qualquer pessoa
não há nada de errado em não atender as expectativas dos outros
não há nada de errado em ser fiel como um cão ou traidor como uma cobra,
desde que saiba que tudo na vida tem volta
não há nada de errado em parar, fechar os olhos e descansar
não há nada de errado em escrever poesias e sonhar

o homem

quando o véu sobre meus olhos foi rasgado, aos meus pés o seu pedestal estava arruinado
não havia mais o deus que eu adorava, para quem eu me ajoelhava e fazia preces desesperadas
havia apenas um homem
um homem com alguns defeitos e muitas qualidades, mas um homem
alguém feito de carne, de raiva, de alegria, de sonhos, tristezas, medos, necessidades
um homem que tem uma vida independente, que entra no carro e vai trabalhar todos os dias
não a estátua de ferro, inerte, que eu acariciava e esperava que resolvesse todos os problemas, que aceitasse a minha presença constante e sufocante, que me salvasse das águas da vida porque eu não sabia nadar
não, você sempre foi um homem, com os próprios problemas e o próprio mar para navegar
um homem com os olhos tão cheios de alguma coisa que nunca poderei entender
porque eu nunca quis te conhecer
eu sempre quis um ser para venerar, um sol para orbitar, embebida pela sua graça
eu nunca quis um homem. um homem é tão falho. assim como eu sou falha
mas eis aqui você, este mistério, para desvendar ou proteger
não há segurança em seus braços, mas há braços que abraçam de volta
há olhos que veem, ouvidos que ouvem, lábios que respondem
há essa respiração forte e o som de um coração que bate suave, como uma canção reconfortante 
no fim, foi preciso demolir o que era deus para amar inteiramente o homem

nomes na agenda

Um nome na sua agenda, entre tantos outros
Um nome que você escreve para não se perder entre tantas mentiras
O nome que fica com as segundas, terças ou quartas, nunca com os fins de semana
O nome que cuida e dá colo para você dormir
O nome que oferece o corpo e sorrisos e compreensão e só pede seu carinho em troca
O nome para quem você diz que está cansado, e ele te apoia e diz que vai ficar tudo bem
O nome que te ajuda no trabalho, para você ter momentos tranquilos com o nome dos fins de semana 
O nome que você diz ser o principal, mas que não trata como principal
O nome que não é só um nome, é alguém que sente dor, amor, e medo
O nome que você prende para ter conforto
O nome que você não tem coragem de riscar porque ele lhe é conveniente, é subserviente, é um resto que você pode usar e descartar quando quiser
O nome que agora é item logístico, espremido entre os nomes de sexta a sábado, sábado a domingo
O nome que um dia foi o único nome
Um nome qualquer

corto minhas mãos para não te tocar

corto minhas mãos para não te tocar

você é uma cobra que vai me envenenar

para depois devorar o meu corpo como se fosse nada

quebro as pernas para não te procurar

você é um demônio prestes a assombrar

para depois possuir o meu corpo como se fosse nada

arranco meus olhos para não te fitar

você é um anjo que vai me salvar

para depois largar o meu corpo como se fosse nada

o reflexo

você não me ama, estou sozinha
o mundo é uma tela fria
dos seus desejos e sonhos

assombrada pelo meu próprio fantasma
os sentimentos trancados, sinto o nada
preenchendo o ar dos meus pulmões

cobri o espelho para não encarar a sua decepção
a alma sofrida, o coração na mão
as cartas não entregues com todas as minhas promessas

joguei meu corpo do precipício jurando que não ia quebrar
mas no fundo eu já sabia, e queria que machucasse

assim eu poderia me enrolar num cobertor de dor
assim eu poderia me esconder da vida
da necessidade de me conhecer tão profundamente
da necessidade de me amar, me proteger, me fortalecer
e de entender que falhei

falhei centenas de vezes, falhei de propósito, falhei até tudo ruir
e agora não há onde segurar, pois criei um inimigo dentro do meu sangue
você odeia o que nos tornamos

não há mais ternura em seus gestos, não há braços para acalentar
não há a alegria genuína pelas pequenas coisas, o prazer em ser, apenas ser, sem medo

sou o monstro que destruiu a cidade, o pesadelo que dura noites e noites, a culpa como espadas lancinantes

mas aqui estou, à espera do seu perdão
da minha salvação
me leve para onde nos perdi

sinto no meu corpo trêmulo a dor de amar você

sinto no meu corpo trêmulo a dor de amar você
o vazio onde antes tinha o seu afeto
acho que você mudou, uma versão que não tenho mais acesso
porque eu estou igual, todos os erros ecoando infinitamente
só o que não mudou foi esse amor que me rasga
agora você encontrou outra pessoa, eu vi as fotos, você parecia tão feliz
nos nossos último momentos, não tinha mais aquele brilho nos seus olhos, aquele brilho que agora é dela
acho que você continuou comigo por tanto tempo por mero costume
eu era o seu objeto, que fazia tudo que você pedia, tão inteligente quanto um cachorro
eu respirava você, tão patética. então entendo você ter me deixado
eu era a sombra de uma sombra de uma sombra
eu tinha pouco ou quase nada de bom a oferecer
não é uma lamentação, embora pareça. é uma constatação
eu não sou eu há muito tempo. eu nem sei quem sou. por isso me agarrava tanto a você, eu era uma namorada
era receptáculo de um amor. eu vivia por suas conquistas. eu vivia pela sua felicidade. isso me sustentava
agora esse ser ávido em meu peito não sabe o que vai devorar. então ele me devora
me devora até sobrar apenas os ossos, que eu junto numa pilha e carrego comigo
pois apesar de tudo, eu ainda estou viva, eu ainda respiro, eu ainda preciso continuar
sem você
sem mim
reconstruindo o meu esqueleto, a minha carne, a minha mente, o meu corpo
um corpo destruído, cicatrizado, desprezado, mas que me pertence, é só o que me resta
então eu quebro tudo o que já fui (e não fui) 
e tento recomeçar