lembrança

eu lembro que te amei tão
docemente
e tudo em mim te pertencia
a música do silêncio nos seus lábios
enquanto eu adormecia

eu lembro que te procurei tão
desesperadamente
e a dor me consumia
o filme da indiferença na sua face
enquanto você mentia

eu lembro que esperei
humilhantemente
pensando que me escolheria
a dança das cadeiras da sua parte
enquanto me esquecia

eu lembro que lutei tão
bravamente
e só entristecia
a pintura da felicidade em suas mãos
onde eu não servia

eu lembro que chorei 
profusamente
enquanto a solidão roía
o vulto da memória da sua casa
que sempre aquecia
 
eu lembro que te odiei tão
docemente
pois nada em você me pertencia
a música do silêncio em meus lábios
enquanto você partia

fim

não há o que dizer, tudo já foi dito
o coração é uma máquina cansada
onde existia amor, não resta nada
cada um perpassa o seu labirinto

rosto sorridente, sentimento extinto
peça do seu jogo, agora descartada
sempre um saco velho de pancada
engolindo a dor para ficar faminto

o fim chega, música interrompida
um livro mal-escrito pelo passado
nossa foto bonita, mas esmaecida

e depois de tudo, mesmo curado
o corpo continua a ser desgastado
por aquilo que chamamos de vida

respirar

se tudo ao redor esmaga quem eu poderia ser

se tudo ao redor são ruínas (de mim)

eu escrevo

escrevo porque preciso respirar

respiro porque preciso escrever

e guardo o meu coração entre as linhas

para ter onde voltar quando eu estiver perdida